quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Liberdade

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...
Fernando Pessoa

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

La Mariposa está

Procurando um chão para enfiar os pés.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Palavras amassadas


Cinema

O céu cor de cinza
Que tinge a saliva
Cobre-a inteiramente.
Ela sente frio
Sem guarda-chuva.
Algo está diferente.
Ela pode sentir no gosto da boca dele.
Enquanto, um casal parado no fim da escada rolante
Abraça aquele abraço bem apertado
De coisa bem junta
Encaixada.
Entre muitos beijos,
o casal não pensa.
Um rapaz solitário passa apressadamente.
Procura por alguém. Ou procura por algo?
Em uma mesa uma moça fala desesperadamente
E um moço parece prestar atenção com desânimo.
Conversam sobre construir.
A moça quer um apartamento.
Pensa em investir.
O moço apenas olha para seus seios.
Sorri nervosamente.
O casal que se beijava de pé, no pé da escada, senta.
E então, a garota passa as mãos delicadamente pelo rosto do garoto.
O garoto sente.
A moça continua "Vamos apenas dar uma procurada para ter uma idéia de valores".
O moço num rompante "Para termos os pés bem no chão!"
Ilusão?
O garoto pega na cintura dela.
Quase que sem querer deixa a mão deslizar para o quadril.
Aperta.
A garota sente.
O rapaz solitário passa mais uma vez.
Sem procurar, sem encontrar.
O amor não é uma ilusão!
Existe.
E enquanto ela chora por dentro
Chove lá fora
Desta vez, ela queria um guarda-chuva...
Mesmo tirando os seus pés do chão.
No fim da sessão, o rapaz solitário caminha com o seu par.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Um instante, destes prolongados

Há momentos para silenciar revoltas.
Há momentos para vibrar sorrisos.
Há momentos em que o momento escapa.
Há momentos em que o momento não nos dá paz.
Há momentos para serem recordados sempre.
Há momentos para serem aniquilados.
Há momentos em que me reconheço cega.
Há momentos em que mal me reconheço.
Me empresta o espelho?

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Apenas uma rosnadinha

- Olá!
- Oi
- Tudo bom?
- Sim
- O que vai fazer no final de ano?
- ....................
- ....................
- ....................
- Nem responde
- Estou ocupada
Medo deste tal mundo moderno, desta tal conectividade, desta "intimidade".
Preguiça de acompanhar, ao mesmo tempo ficar para trás parece angustiante.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Gosto quando te calas

Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longínquo e singelo.
.
Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.
Pablo Neruda

Quis passar por aqui apenas para registrar

O amor é inviolável.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

inércia

s. f.
1. Falta de movimento ou de !atividade.
2. Preguiça, indolência.
3. Propriedade dos corpos que não podem alterar o seu repouso ou o seu movimento.

domingo, 15 de novembro de 2009

Em São Paulo

Se eu quisesse agora uma pausa no tempo, talvez ela viesse.
Se eu quisesse agora as lacunas do tempo, talvez eu tivesse.
Se eu quisesse agora me perder no tempo, talvez eu me perdesse. Talvez.
Acontece que eu não quero que o tempo pare.
Acontece que eu não quero espaços em branco.
Acontece que eu não quero me perder. Não mais.
Quero o tudo do meu agora. E só.
É o que me basta neste tempo.
Tempo de meu tempo.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Me gustas cuando callas

Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
Déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.
Pablo Neruda

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Brevidade me dê acalanto para eu acompanhar-te

Sabe quando você não consegue parar de pensar em uma coisa só?
Pois é, eu não consigo parar de pensar em uma única coisa.

Finjo que trabalho.
Finjo que tomo café.
Finjo que escuto.
Finjo que escrevo.

E aquela única coisa me toma por inteira, me devora como se eu não tivesse tempo para pedir que pare, como se eu não tivesse percepção para dizer não. Faz tempo eu disse sim aos eternos instantes initerruptos. Eu sei.

Finjo que estou.
Finjo esquecer.
Finjo que vejo.
Finjo-me ser.


Estado de celebração. Grito, sinto vida! Essa coisa que não me deixa é o viver? Estado de graça. É como se eu quisesse reunir cada pedacinho do agora para que ele não se vá, porém enquanto aqui digito mais uma letra sei que ele já se foi e continua indo, me navegando
fazendo-se fogalha. Não consigo parar de pensar nesta coisa que me acerca. Essa coisa é minha ou é de alguém? Ela que me toma e me torna inteira no presente. Quero apenas sensações, essas de agora que não me desviam o foco e me desconcentram do resto. Penso em uma única coisa.

Finjo.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Agora

Gosto desta pintura, porque ela me passa a sensação que sinto agora
E então eu pergunto, por que as madrugadas são tão férteis?
Dona de prazeres e loucuras.
Senhora do meu gostoso e tranquilo caos.
Falo de coisas minhas e me perco nos tais excessos, o que não me impossibilita de dizer que eu estou me sentindo despretenciosamente livre e leve. Eu estou presente no "melhor dos mundos possíveis". Venham sujar-me! Arrebatam-me sempre que puderem, ó turbulentas instigantes madrugadas.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Sobre vontades IV ou Anoitecer

Quando o crepúsculo chega embaça os meus olhos. Ele chega e borra. As cores parecem perder o brilho. Ele chega e mancha. As formas parecem perder o contorno. Nesta hora é mais fácil confundir. Confesso, até gosto desta confusão. Será que o dia é noite? Será que a noite ainda é dia? "Eu moraria nesta hora". Sei também que quando a noite se estabelece emana beleza. Clareia os meus olhos. É tão segura, envolvente. Quero anoitecer.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Simples assim


imagem Thiago Abe

01:33

Vontade de anoitecer.
Sono.
Ando me perguntando muitas coisas.
Sono
Ando também descalça - já faz um tempo.
Sono.
Vontade de vestir meias.
Boa noite.

Tempo, tempo, tempo

Gosto de dias tipicamente paulistanos.
Eu sempre me pergunto "para onde vai tanta gente?"
Eu sempre me espanto "quanta determinação!"
Hoje choveu chuva boa.
Não me lembro de ontem.
Gosto desses dias que chovem sem querer.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Amor e arte, uma celebração da vida

Sensação de vazio.
Sensação reticente.
As minhas gavetas estão abertas, aquelas que foram trancafiadas com chaves esquecidas em algum parque, em algum supermercado, em algum carro.
Sensação de silêncio.
Sensação reticente.
Ora, as chaves sempre aparecem, ou porque um duende sapeca queria brincar com a gente ou porque há momentos para serem encontradas.
Sensação de angustia.
Sensação reticente.
Nada se define. Tudo se define. Eu não tenho necessidade nenhuma de definir. Só de diluir. Misturar. “Pedi licença, para ir ao banheiro chorar choro de alguém”.
Sensação de ressaca.
Sensação reticente.
É estranho! Apostamos em coisas que acabam. Compramos computadores que ficam obsoletos. Tudo é finito, embora eu insista em dizer que estou em busca do meio, apenas.
Sensação de enjôo.
Sensação reticente.
Haverei de se expurgar o amor? O amor é impuro? Ou amar é sujo? As reticências por vezes me acompanham, por vezes me revelam, por vezes me assustam, por vezes me acalmam. E as perguntas? “Eu gosto de me sujar com tintas”.
Sensação de inquietude.
Sensação reticente.
Demonizar o outro é mais fácil. O outro. O umbigo do outro. Sim quero o meio, porém assumo: “o final traz frustração”. Traz perda. “Eu fui ao banheiro e não chorei choro de alguém, chorei choro meu”.
Sensação de engano.
Sensação reticente.
Gosto do engano. Gosto da contradição. Gosto do amor. “Eu sangro todo mês”.
Sensação de alívio.
Sensação reticente.
Aceito a morte, porque aceito a vida. Hoje eu encontrei o guardião do meu inconsciente, que devia estar numa daquelas gavetas... Fiquei com a mente solta. Liberta. Driblando o consciente, o ego, a razão.
Sensação de leveza.
Sensação reticente.
Aceito o ciclo. Digo sim ao amor que finda e brota uma de mim.

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CASA COMIGO

Casa comigo

Casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo
A mais linda, a mais amada, respeitada, cuidada,
A mais bem comida
E a pessoa mais namorada do mundo
E a mais casada
A mais festas , viagens, jantares
Casa comigo
Que te faço a pessoa mais realizada profissionalmente
E a mais grávida, e a mais mãe
E a pessoa mais as primeiras discussões
A pessoa mais novas brigas, e as discussões de sempre
Casa comigo
Que te faço a pessoa mais separada do mundo
A pessoa mais solitária com um filho pra criar de todas
A mais foi ao fundo do poço e dá a volta por cima
A mais conheceu uma nova pessoa
A mais se apaixonou novamente
Casa comigo
Que te faço a pessoa mais...
Casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo.
de Michel Melamed

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente,
os homens presentes, a vida presente.
Carlos Drummond de Andrade
*** imagem de Thiago Abe

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Mais uma vez Clarice

"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento".