terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Gole a gole

Ela me empurrou para uma dança sórdida.
Ah, quantos passos fora de compasso.
Alegria vaga. Movimento largo.
Tudo bem?

Ela me levou aos sonhos mais profundos e descabidos.
Disse que eu podia mais. Cada vez mais.
Instigou, provocou.
Rendida aos teus mistérios me entreguei ao seu amargor.

Descia pouco a pouco.
Subia pouco a pouco.
Gelou a máscara, esquentou o corpo.
Ela comeu meus muros, soltou meu riso, prendeu a minha fala.

Depois neguei tudo. Tudo.
Ela apagou a lembrança. Fingiu que curou.
Mas a estranheza da manhã perturbou meu sono.
Alegria solitária. Movimento curto.

Não ouvi nada. Nada.
O gosto amargo na boca gelada perpetuava a noite passada.
Olhei no espelho.
Eu, desconhecida para mim.
Eu, ainda estou aqui.
Desci, lentamente desci para não mais subir.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Exercendo instantes

Não quero ser um retrato, quero ser um quadro de tinta fresca. Aquele que paralisa o olhar de tanto incomodo capaz de raptar alguém de sua conformidade diante de tamanha imperfeição. Obra inacabada que faça mudar. Mudar. Mudar-me. A namorada exemplar eu não quero ser. Aquela que liga na hora certa. Aquela que sabe escutar. Aquela que sorri para os amigos dele. Também não quero ser a melhor recordação de um amante amado. Não basta. Pretensiosa sim. Basta não. Quero ser sem atributos. Ser no instante. Na efemeridade. Ser até esgotar. De tão esgotado não ser mais nada. Nada. Isso, isso que eu quero ser: nada.

Estive pensando em Dona Idalí... Ela me irrita. Tão previsível. Incapaz de agüentar sua própria ousadia. Liga, mas não diz. Ouve, mas não corresponde. Talvez eu tenha um pouco de Dona Idalí, por isso me irrite tanto com ela. Talvez. Jamais quero sê-la.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Nego tudo

Não perderia a fala se você me ouvisse
Não me cegaria se você fosse presente
Não sumiria se você me visse
Não viveria se não te amasse

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Nasce, cresce, se reproduz e morre

De cadeira em cadeira a sala ficou vazia. A multidão sentada não tinha nada a dizer. Também não tinha nada a sentir. Petrificou. A ausência de luz se impunha sobre aqueles seres. Humanos talvez. Alimentam-se do passado e dormem a espera de algo, sem fechar os olhos. Abandonados a vida, lamentam o que não foram. Condenados a viver, contam histórias de si mesmos - que jamais vivenciaram. Só para acreditar. Seres humanos sim. São eles que têm esta coisa de “acreditar”. Estão sempre querendo crer. Na sala, deram-se nomes como se não fossem registrados em cartório e riram da desgraça alheia como se não fossem desgraçados. Sob o tapete persa inaugurado naquela noite todos brindaram o encontro erguendo taças de cristal. Erguiam também as posses, o "status", as vantagens e a indiferença. Uma máscara conversado com outra. E quem falava alto era o umbigo de cada um. Mesa farta, umbigo inchado e um buraco. Buraco esse a espera de ser tampado. E aqui inevitavelmente eles se igualam. Não tem pompa, não tem título, não tem perfume que os diferencie. Pobres humanos!

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

A. ou Poeira empoeirada do móvel da calçada

Está tudo parado. A coleção de cds. A leitura daquele livro interessante. Os ingressos do teatro. Está tudo apagado. O quarto de diálogos. O caderno secreto. A exposição inédita. Está tudo a beira. O copo de água. A cabeça da artista. Os pés descalços. Está tudo gelado. As cordas do violão. As mãos magras. A coberta quente. Quente está tudo. O chá da noite. O banho no chuveiro. O rádio ligado. Está tudo longe. A maquiagem ousada. O salto provocante. O desprezo necessário. Está tudo em branco e preto. O céu azul. O esmalte vermelho. O amor puro. Está tudo vazio. O pote de doces. A caixa de cartas. O corpo dela. Está tudo guardado. Você e eu. Eu e você. Você e eu. Eu e você. Está tudo veloz. A paixão inesperada. Os meses de outono. O fim de tudo. Tudo está onde deveria estar? Gota a gota, a vida escorre pela rua, pela foto, pela parede, pelas pernas, por mim e por ti.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Sede

água limpa
água molha
água queima
água penetra
água refresca
água arrebenta
água alimenta
água na boca
água sufoca
água brota
água mata
dentro da água eu nasci

domingo, 4 de novembro de 2007

O Vestido

Da cozinha dava para escutar os sapatinhos apressados pisando na madeira e repentinamente um silêncio que parecia eterno até o sol se por totalmente. Todos os dias de outono eram assim naquela casa. Envolvida pela história que ouviu sobre o vestido amarelado de tão velho, Lia passou sete anos de sua vida adorando o outono.

Tudo começou aos sete. Era só as folhas secas começarem a aparecer, que a pequena menina, de sardas no nariz, corria até o sótão. O vestido ficava lá, pendurado num cabide, junto a muitas outras histórias empoeiradas. O sótão sempre foi escuro, a única luz vinha de uma vidraça localizada no teto. Por vezes, a menina franzina dormia ali mesmo, encolhida, com o dedo na boca.

Ela sempre contava algo para ele. Dividia todos os seus segredos, inclusive o seu maior. Lia tinha mania de derrubar o vaso de flores do batente da janela do seu quarto. Não por pirraça, apenas por amor. Para ter a mãe perto enquanto limpava o chão, reclamando do vento, dizendo que iria mudar o vaso de lugar. A menina retrucava. Explicava que as flores precisavam de luz e por isso o local era o ideal. A mãe, que costumava não ouvir, ouvia e deixava o vaso ali, talvez até por saber o segredo de Lia.

Lá em cima, a menina costumava jogar pedras no vestido só para rir. Ria até gargalhar. O pano girava para um lado e para o outro, e assim, ela imaginava as danças, que ele dançara.

Numa destas tardes, a menina o achou sem graça. Apertou o tecido para ver a reação e nada, mordeu com toda a força, que uma boca de nove anos de idade podia fazer, mas ele continuava na mesma posição, então, ela resolveu radicalizar. Ora aquele vestido, o seu melhor amigo, não podia ser tão passivo. Com o guache recém ganhado da professora resolveu dar cor ao tecido. Começou pela saia, ali desenhou alguns sonhos, um deles conhecer o pai. Quando começou a parte de cima, sua mãe lhe chamou. Lia tomou um baita susto, fez um rabisco enorme e guardou o guache num baú.

Desceu apressada para disfarçar, mas foi flagrada lavando as mãozinhas, na pia da cozinha. A mãe não entendeu o constrangimento da menina e foi verificar o que havia acontecido no sótão. Passou a mão no vestido e a luz, que já estava indo, revelou as marcas da tinta.

Lia subiu pedindo desculpas e já sentiu o tapa no rosto, chorando, continuava a se desculpar. Este era um dos únicos momentos de contato com aquela mulher. A hora da surra. Apanhou até a sua avó intervir. Ficou caída no chão, não quis descer e dormiu ali mesmo. Nesta noite, sonhou com o pai, que nunca conheceu. Acordou com vergonha do vestido e decidiu nunca mais visitá-lo.

Passou um outono e ela não o viu. Longe do sótão, ficou ainda mais calada. No outro, Lia “esqueceu” o ocorrido e resolveu subir. Com um diário na mão, correu para ver o amigo. Ficou surpresa ao ver que ele continuava igual e com os seus desenhos. Ela sentou e abriu o seu diário na primeira página. Leu o que a pouco tinha escrito “Mais uma vez o outono chegou sem avisar”. Ao terminar a frase percebeu o vestido tomado por ciúme, afinal era ele quem sabia das histórias e não o diário. Sem hesitar, arrancou a folha escrita, amassou e jogou num canto. O diário nunca mais foi aberto.

As tardes de outono se repetiam. A menina chegava apressada da escola, colocava a mochila em cima da mesa da cozinha e subia correndo, antes que a luz do dia acabasse, porém - e sempre há um porém - uma tarde foi diferente. Lia já tinha 12 anos completos, estava sentada olhando fascinada para o vestido, quando percebeu algo estranho. Passou a mão no fundilho da calça e sentiu o molhado. Com a mão apontando para a luz, viu o sangue. Ficou assustadíssima. Gritando, mostrou aquilo para o vestido, mas ele nem se mexeu.

A avó escutou os prantos e acolheu a menina. Explicou que a partir daquele outono, todo mês sangraria e que o sangue era prova de que um dia seria mãe. Lia não entendeu muito bem, mas se conformou. Neste mesmo dia pediu, mais uma vez, para a avó lhe contar a sua história preferida.

E pela última vez, a velha contou, porque logo depois faleceu. Colocou a neta no colo e repetiu. “O vestido do sótão não é comum. Foi usado, numa tarde de outono, por uma bela princesa, que vivia no alto da montanha. No dia do seu casamento, estava tão nervosa que acabou comendo demais, por isso não conseguiu caber no vestido. Então, a costureira do reino teve que descosturá-lo e desfazer algumas rendas. Assim ela casou, com o vestido aberto. Mas a princesa estava tão linda nele, que ninguém notou tal imperfeição”.

“Mas, vó, como o vestido veio parar aqui?” A pergunta ficou sem resposta e Lia criou a própria. “O vestido nobre quis dar alegria à casa pobre”. Um dia ela tomou coragem e perguntou à mãe porque ela não gostava do vestido. “Me deixa em paz”, era a frase que escutava para tudo o que perguntava “Mãe posso dormir com você?”, “Mãe coça as minhas costas”, “Mãe olha o meu desenho”.

Aos treze, muita coisa mudou. Até a sua relação com o vestido. Lia já não tirava a camiseta na frente dele, quando sentia calor e começou a guardar segredos na própria cabeça. Mas teve um que fez questão de não guardar. Apaixonada, contou como foi beijada, na escola, por um menino mais velho e muito mais bonito do que ela, para ela. Perguntou ao vestido se ele já tinha sido beijado. Como ele não respondeu, Lia o beijou.

Assim, as tardes de outono passaram a ser cheias de sorrisos de canto de boca e brilho no olhar. Ela sentia um calor inexplicável na espinha, quando estava ao lado do garoto, mas o romance foi breve, não durou nem até ao término da estação. O dia do fim do namoro foi como o dia da morte da avó. A menina chegou ao sótão trêmula, se esticou num canto para chorar e não contou nada ao vestido. Percebeu que ele também guardava dor e teve dó dele, pois jamais pôde chorá-la. Lia, então, chorou pelos dois a tarde toda.

No ano seguinte, a história contada sobre aquele vestido já não satisfazia a menina crescida. Ela olhava para ele e só enxergava mistério. Não compreendia porque o vestido tinha de ficar pendurado ali. Nem porque a sua mãe nunca a deixou costurá-lo.

As visitas ao sótão diminuíram. Em compensação, ao quarto da avó aumentaram. Revirava todas as coisas da velha. Via fotos antigas, pedaços de tecidos, relógios parados no tempo. Mexendo numa caixa, avistou uma carta da avó que jamais chegou ao destino, à irmã de Minas Gerais, datada de 21 de outubro de 1969, exatos cinco meses antes do seu nascimento. Na carta, havia muito desespero. Ela dizia que seu marido havia fugido por ter cometido uma atrocidade com a filha. “Ele pegou o meu vestido de casamento, fez a minha menina vestir e a levou para a praça. Lá ele rasgou toda a roupa e gritou para todo mundo ouvir, que ela jamais usaria um vestido como aquele, porque não era honrada. Minha irmã me ajuda, ela está grávida, mas a criança não terá pai, porque o infeliz mandou matar”.

Lia não terminou de ler. Sentiu culpa. Sentiu pena. Desta vez não chorou. As folhas secas do outono pareciam mais secas. Pegou a carta, dobrou e a entregou para a mãe, que cortava a carne. Ela abriu e leu ali, na cozinha mesmo. Ficou imóvel. Como se fosse punição o vestido nunca fôra para o lixo. Lia não conseguiu abraçá-la, mas os seus olhos valiam mais do que qualquer tentativa. A mãe terminou de cortar a carne, e a menina temperou e fritou. As duas sentaram-se na mesa, coisa que nunca acontecera, e, juntas almoçaram, sem trocar uma palavra. Aquela foi uma tarde de cumplicidade, que já estava desenhada na saia do vestido.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

A pele diz

Sexo confere poder.
Com você não amigo meu.
Jamais queria te cobrar por um gesto que não seria seu.

Sexo poderia me fazer odiar-te.
Você não amigo meu.
Você me vê do avesso.

Sexo subverte.
Com você não amigo meu.
Você é aquele que me conhece além da roupa “esquisita” que costumo vestir.

Sexo fragiliza.
Com você não amigo meu.
Eu tenho o seu olhar que me engrandece.

Sexo retrai.
Com você não amigo meu.
Para ti guardei a pureza de me dar.

Sexo é insatisfação constante.
Com você não amigo meu.
Você me sacia apenas com o seu olhar.

Sexo enlouquece.
Com você não amigo meu.
Você é a sanidade árdua em meus passos descalçados.

Sexo rebaixa o amor.
Com você não amigo meu.
Porque eu te amo.

domingo, 28 de outubro de 2007

Teatro

A aparente certeza abalou-se. O gozo interrompido pelo sofrimento gozado, sentido na privada, despertou o que não agüentava calar. Sem medo, o corpo eletrizado e embalado pelo devaneio e vontade de ser e dar mais se inquietou. Como chama que circula pôs-se a girar. É preciso viver isso! Preciso. Preciso? A incerteza sempre espantou o seu desejo de ser e dar mais! A arte gritando sufocada queima o corpo estarrecido de tanta razão. No misto de realidade, ser e dar mais, uma rápida fuga a feira. O cheiro da fritura do pastel conforta aquele corpo ainda pequenino e protegido. É só caminhar. Entre laranjas e alfaces, o corpo obedece.

Meus óculos estão quebrados

A menina vivia feliz dentro da janela de vidro. De vez em quando ela via o mundo lá fora. Ficava assustada. Com o passar do tempo, além de assustada começou a ter vontade de sumir. As promessas daquela sedutora janela pareciam não conter mais a menina, que sonhava, planejava, sonhava, planejava, sonhava... Apenas sonhos, que jamais seriam outra coisa, se não sonhos.

Aquela realidade inventada já não bastava para a menina do vidro distorcido. Lá dentro era bom, mas um sinal de qualquer movimento lá fora era o bastante para uma revolta sem tamanho. Gotas de fantasia não satisfaziam sua sede. Ela chorava o choro dos miseráveis e ria o riso dos desesperados.

Ficou com febre. Estado permanente. O calor do seu corpo embaçou todo o vidro da janela. Estado de graça. Ela não via mais nada lá fora. Parecia então, sua salvação. Febre. 40 graus, 41, 42... Promessas compridas. Beijos doces, corpos nus e plenos. Foram três meses. Ela viveu a sua sina, viveu o seu sonho, viveu... Até dormir, pela primeira vez, um sono tranqüilo.

Parte ao todo

Eu me apaixonei pela experiência e pela falta dela. Pela certeza e pela vontade de saber. Duas peles distintas, porém igualmente claras como a neve e plácidas como esta música que toca agora. Com uma, a possibilidade de realizar um sonho, com a outra, a possibilidade de sonhar mais. Difícil explicar. Fácil sentir. Por mais que eu pense que deveria escolher uma para seguir, não dá. A doçura do olhar. A amargura para acabar. A pureza de se dar. As mãos para segurar. Voar ou ficar? Um dia saberei. Hoje não, hoje sou da tênue linha que divide as claras brancas figuras. Da sutil marca que separa. Da prisão inexistente neste risco pontilhado quase apagado, que de tão leve não me deixa sair.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Parede nua

Hoje achei o quadro feio. Julguei o desenho, as cores, as palavras. Feio. Até o que ele representa, eu não gostei. Até a sua indefinição presente em mim me pareceu insegura demais. Só a grossura das linhas debruçadas ali não me assusta, nem me parece ruim, prefiro assim. Intensa. Pensei em tirá-lo da parede e colocá-lo no fundo do armário, aquele mesmo, lembra? Evitei o toque. O toque, que entre as duas coisas que te falei, me faz maior, me faz multiplicada em mil. Eu não o olhei de todos os ângulos possíveis, aliás, não sei te dizer quais são todas as possibilidades - a exatidão nunca foi meu forte - mas escolho uma. Quis te dizer que a música suspira, porque suspira como eu. Na vontade de arrancá-lo da parede me vejo fraca, mentirosa, então, suspiro um pouco mais. Vou suspirando, quando a falta é maior. É um soprar de velas sem fim, sem aplausos no fim. E é este mesmo final que me consome. O previsível cortar do bolo. Algém me disse que eu estou apaixonada. Já ouvi dizer que apaixonar-se é a vontade de se reinventar. Mas eu digo que a minha paixão é um encontro com mais de mim. Um voltar-se a minha pele. Ser nua. Esvaziada. E sua. O quadro fica! Preenche a parede (pelo menos). E enquanto isso? Eu vou suspirando.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Boa Noite

Dona Idalí só consegue dormir depois que todos se deitam. Caminha de quarto em quarto verificando o sono alheio, tampa a privada e checa todas as trancas da casa. A noite é como um santo remédio. Antes de deitar esquenta o seu chá, coça a barriga do gato Jorge e escuta o vendedor de aspirinas na rádio, mal sintonizada, com barulho de AM. Onze horas em ponto. Há 20 anos anunciando os bens das aspirinas, o locutor mantém Dona Idalí apaixonada. Certa vez, ela ligou para a rádio e conseguiu ser atendida por ele mesmo, o locutor. Mas ao ouvir aquele "vozeirão" desligou e nunca mais ousou tentar. Arrasta o pé pelo corredor até chegar ao seu canto. Lá, solta seus peidos, apenas noturnos. Solta também o coque e coloca dois grampos no cabelo branco, um de cada lado para não acordar arrepiada. Tem horror a cabelo mal arrumado e a acordar durante a madrugada sem conseguir ascender a luz. Por isso, sempre testa o abajur. Fecha todas as portas do seu guarda-roupa, enxuga a goteira do chão que cai do teto, coloca as meias marrom e dá um beijo na foto do falecido. Sentada na cama, fuma com gosto o último cigarro. Deita-se de barriga para cima, cobre-se até o pescoço com a coberta e fecha os olhos.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Fome


Como eu te amo
Como e te amo
Coma e me ame
Coma-me

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Alvorada

Naquela manhã o despertador não tocou e Lucia acordou com as horas grudadas no céu da boca. Não saiu da cama por duas vezes e correu sem parar durante o sono. A hora do xixi matinal não passou. A preguiça espreguiçada durou a eternidade. E mais uma vez ela sorriu ao perceber a vida tranqüila a qual se propusera. Lembrou do sonho da noite passada, tão exato quanto à maquiagem que usa antes de sair de casa. Mirou a janela para que os ouvidos pudessem ouvir o barulho da cidade. Silenciosamente ela ouviu o bocejo e continuou na cama. Em oito quilômetros estaria na sua mesa para mais um dia de trabalho. Quis chorar, mas antes pensou “é questão de tempo”. Sem lágrimas, virou para o espelho e viu o rosto sem remelas, sem rugas, perfeito como as contas de somar do primário. O copo de água intacto em cima do criado mudo causou estranheza. “Não tomei água ontem?”. Sentiu a garganta seca e tentou salivar três vezes. Sem conseguir, caiu num choro esquecido, tão velho quanto a sua tristeza, tão novo quanto a sua vida. Gritou para as cores vivas. Amarela, vermelha. A essa altura o tempo não era mais a questão, as cores estavam apagadas e o seu caso não permitiu espera. Sua vida de “sins” havia se transformado na negação de viver. Inventou que era feliz por um segundo e não suportou o peso da invenção. Ela evitou a dor da sua existência e deixou de existir.

domingo, 21 de outubro de 2007

Simples assim

Um anão deixou escrito em todas as páginas de seu mini diário, que encontrei quando eu estava ao lado de um chinês - o guardião do meu inconsciente - o seguinte: "Está frio ponho a blusa, está quente tiro a blusa. Está frio ponho a blusa, está quente tiro a blusa. Está frio ponho a blusa, está quente tiro a blusa. Está frio ponho a blusa, está quente tiro a blusa. Está frio ponho a blusa, está quente tiro a blusa. Está frio ponho a blusa, está quente tiro a blusa. Está frio ponho a blusa, está quente tiro a blusa. Está frio ponho a blusa, está quente tiro a blusa. Está frio ponho a blusa, está quente tiro a blusa. Está frio ponho a blusa, está quente tiro a blusa. Está frio ponho a blusa, está quente tiro a blusa. Está frio ponho a blusa, está quente tiro a blusa. Está frio ponho a blusa, está quente tiro a blusa. Está frio ponho a blusa, está quente tiro a blusa. Está frio ponho a blusa, está quente tiro a blusa". Li e reli as 77 folhas mais de onze vezes. Depois que entendi corri dentro da caverna escura, sem lanterna. Não me deixei seduzir pela cachoeira bonita, que dizia para eu mergulhar e adentrar a sua beleza. Coloquei a pedra no seu lugar, no topo da caverna. Fora dela. Ele, o anão, voltou. E o amor, então, estava livre.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O começo

Já é primavera.
Mas eu continuo a existir no silêncio.
Num exílio permanente, onde a fonte é o meu desejo.
Ardo a espera do adeus.

Onde devo existir?
Se a matéria se faz presente quando a toco.
Posso ser quando me adentra.
Em mais uma noite paulistana.

Floresço mesmo assim, na poeira.
Na morte de várias tardes de sol.
E paro como se nunca tivesse ouvido.
Tua alegria de um dia só.

Para a estréia de mais uma estação.
Escrevo-te o fim, sem saber o meio.
Na ânsia de mais.
Dou nada, certa de que isto é tudo.

O nada, ele é seguro.
Tão certo de não ser.
Eu existo?
Ele existe.