quinta-feira, 9 de julho de 2009

Só para constar

Acabo de chupar limão e reafirmo o meu gosto pelo azedo. Rá!

terça-feira, 7 de julho de 2009

Pelo Arquiteto

Sabe como é que eu imagino a felicidade? Acho que, quando a gente é feliz, a gente está junto de alguém que tem a pele muito fina e depois a beijamos nos lábios e tudo se encobre de uma névoa rósea e o corpo da pessoa se transforma numa multidão de espelhinhos e quando olhamos para ela somos refletidos milhões de vezes, e passeamos com ela montados nas zebras e nas panteras em volta de um lago e ela nos puxa por uma corda e quando olhamos para ela chovem penas de pombos, que, caindo no chão, relincham como potros jovens e entramos depois num quarto e começamos a passear de mãos dadas pelo teto... E as cabeças se cobrem de ouriços que nos fazem cócegas e os ouriços se cobrem de ouro, cheios de presentes, e escaravelhos de ouro.

(de Fernando Arrabal, em 'O arquiteto e o imperador da Assíria', porque este é um texto que me toca e retoca)

Mecanicidade na cidade ou Sobre vontades II

Deixar-se flagrar de modo inesperado.
O amor filmado em partes.
Parte da vontade.
Como se subisse por escadas.
Como se quebrasse as paredes.
Refletindo o que se é?
O amor se constrói.
E naquele apartamento, o amor se monta.

(encantamento.afinidades.paixão.diferenças.distância...desejo. e o que virá? virá! e que não seja esta pobre linha)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Sobre vontades I

Do amargo gosto de uma madrugada quase fria e paulistana experimento o azedo encanto de me dar. Me entregar. Sentir. Gozar de uma vontade.
Sim, vontade passa, mas me reconheço aos pés dela. Morreria súdita de todas as minhas vontades e obedeceria, sem objeções, todos os meus impulsos e instantes neste choque, nesta colisão que é viver.

(isso porque hoje eu acordei com uma mistura de gostos e sensações)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Desarrumadas as coisas ficarão

Ana era a única virtude de Carlos. Moça de perfil bem alongado, sorriso de lado e um jeito pra lá de abusado. Costumava fumar admirando o cigarro, só para ver a fumaça se esvair lentamente, enquanto soltos, os pensamentos iam junto. A abstração vivenciada neste momento permitia passos mais longos, que jamais teriam alcance. Nunca se sentira pronta para viver uma paixão. E qual mulher se sente?

Encarava o prazer com o mesmo rigor da dor. Mesmo assim buscava um amor. Um amor que ela não conseguia definir. Um amor tão ideal que jamais poderia existir. No seu quarto, roupas fora do armário, livros fora da estante, quadros fora da parede. A desordem aparente refletia sensações profundas da palpitante jovem. Sua alma desorganizada pelos sentimentos aflorados por um homem estava inquieta. Apenas uma paixão é capaz de desconstruir uma vida inteira.

Tudo para fora. Tanto por fazer. Seu corpo pequeno mal continha tamanha vibração. Sabe aquela coisa que não cabe dentro da gente? Sabe quando a gente sente a barriga invadida por borboletas atrevidas? “Estou viva”. “Viva”. Ana somente supunha a vida. Porém, entregar-se significaria arriscar-se a decepção. Significaria aceitar a morte. Preferiu, então, guardar apenas a possibilidade de ser, a improbabilidade da realização. Preferiu, então, a eternidade.

E aquele sujeito um tanto desajeitado, o Carlos, que cuspia no chão e usava botas desbotadas acompanhadas de camisa amassada decidiu esperar por uma possível ordem da moça. Falava com os olhos quando a olhava. Sorria de verdade quando a encontrava. Ana, somente ela o fazia melhor.

domingo, 17 de maio de 2009

É sempre bom lembrá-la

"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa... Não altera em nada porque no fundo a gente não está querendo alterar nada. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro"
Clarice Lispector

sexta-feira, 8 de maio de 2009


Dentro do carro, em um canto qualquer da cidade de São Paulo, entre um farol e outro, ao som de 'Novos baianos' Zé Celso, Astolfo e eu conversávamos sobre nós.

Por Zé Celso

O teatro não pode ser um instrumento de educação popular, de transformação de mentalidades na base do bom-meninismo. A única possibilidade é exatamente pela deseducação, provocar o espectador, provocar sua inteligência recalcada, seu sentido de beleza atrofiado, seu sentido de ação protegido por mil e um esquemas teóricos abstratos e que somente o levam à inefcácia.

Por Astolfo

Chamam-me de louco, porque ainda tenho nariz rubro como pipoca doce. O circo acabou por isso louco. Mas, aqui, mostro uma mentira e escondo todas as verdades. Para sempre louco!

Por mim

Intelectualidade demais é pra quem não goza.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Enquanto vovó faz comida

"Para bom entendedor meia palavra basta". A gente sabe o que querem dizer estas frases feitas, mas eu não creio que um texto deveria se fazer entendível, talvez isso dependa do fim que ele tenha. Porém, eu não gosto desta condição, nem deste fim para que ele sobreviva. Pegue uma pintura, o que nela não for figurativo não é compreendido? Talvez não mesmo, mas ali debruçada está a alma de um ser, as angustias, alegrias ou desejos de alguém... Para mim, uma obra tem de ser sentida, antes de qualquer teoria sobre qual movimento ou estilo artístico ela pertence. As manifestações criativas sobrevivem sem legenda. Um texto sobreviverá sem uma linha narrativa ou cronológica, sem uma história de começo, meio e fim. Me divirto com estes julgamentos e concepções e deles extraio mais um estímulo para criar sem condição alguma pré-estabelecida, e torno a dizer estou em busca do meio apenas. Um texto meu poderá ser um meio para qualquer coisa. Sinta.

Anseios subtraídos ou *An Seios


"E ninguém é eu. Ninguém é você. Esta é a solidão"
Clarice Lispector

Da terra
Tiro um amor despreparado.
Das máscaras
Arranco a meia luz de uma noite covarde.
Tomo banho apenas para sagrar-me limpa
Esquecendo-me de que suja andei por ai
Desamparada
Embriagada, talvez
Desesperada.
Dos sonhos
Peço uma clara manhã preguiçosa,
Com véus e promessas inacabadas
Exacerbadas
Malditas
Esquecidas.
Do ar busco apenas inspiração
Como cura dos prazeres outrora perdidos.
Agonia não tem face, pois
Porém sinto suas mãos frias
Nos meus seios
Sussurrantes
Que abrigam um céu inóspito
Insólito.
Sem querer a tenho aqui comigo
Sem ombros, nem colo
Num breu fétido e atrevido
De um caminho vívido
Fértil
E líquido
Que escorre
E eu deixo escorrer.


* An ou Anu era o deus do céu entre os Sumérios. Filho de Anshar e Ki-shar, esposo de Antu (Ninhurdag) com que gerou Enlil, era o deus mais venerável e velho entre os Anunnaki, fazendo parte de uma importante tríade divina, integrada também por Enlil, o deus dos ventos, e Enki (Ea), o deus das águas.O seu nome parece significar precisamente céu, ou alternativamente, o zénite do Sol. Era um deus cultuado em toda a Suméria, havendo santuários seus espalhados por todas as cidades do país.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Um rabisco desenhado




Parte de um diálogo de devagações a respeito de "Os Sertões", texto de Euclides da Cunha adaptado por José Celso Martinez Corrêa

Concordo em partes cara companheira. Tomando por base a mais pop e não menos verdadeira frase do ilustre e filósofo Sartre "O inferno são os outros", a festa dionisíaca que embala os atuantes há 30 anos nada mais é do que peles tocantes. Apenas e nuas.
Se o nu lhe parece pornográfico, não será Zé Celso um ousado quebrador de barreiras e sim você uma construidora de definições e bloqueios. E já que o mais profundo é a pele - dito pelo filósofo e tão francês quanto o primeiro Paul Valéry - o espetáculo alcança de forma magistral a razão de sua existência. Sem fronteiras evoca o ser humano a aprofundar-se. Sem roupas demonstra aos menos tocados suas falsas liberdades, quando o aprisionamento parte de quem vê, e não de quem se propõe a fazer. Não há nada de inovador nisso. Eu apenas diria assista. Augusto dos Anjos ficaria feliz, na literatura ele é cru e nu é Zé Celso no teatro. Afinal o sertão é nu e cru, não?

terça-feira, 21 de abril de 2009

Blah!

"Cada ser humano é um abismo e a gente tem vertigens quando se debruça sobre um deles”
Georg Büchner

Nauseando-se.
Nauseando-se.
Nauseando-se.
Que venha o vômito!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Enraizando

Há tempos não me sentia estimulada para escrever. Passei um longo período sem visitar este blog e até pensando em tirá-lo do ar. E agora sem eu saber o exato porque sinto uma imensa necessidade de me expressar. O mês de abril recebeu mais posts do que os últimos três meses juntos. Fase da vida? Vai saber... Sei que estou tomada por uma coisa aqui dentro meio inexplicável. É vontade de algo, sabe? Dar uma enorme gargalhada (e isso eu faço mesmo!), vontade de andar por aí, de ser surpreendida, de me apaixonar mais e mais pelas "coisas" da vida, de experimentar. Toda essa vontade tem me levado a visitas mais frequentes por aqui. E creio, esta tal disposição me levará além e sinto, estou pronta para isso.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Cicatrizes

Talvez ele tenha sido o verso mais puro dos delírios daquela jovem. Ela tomava café. Preto, forte, escuro. Ela pintava as unhas. Vermelho, quente, sensual. Ele simplesmente usava calça jeans e tênis all star destes que nunca se tira para lavar. Ela conduzia aos lugares. Ele sorria. Ela ardia em ideologias e vontades. Ele sentia. Ela se desfazia. E ia. E ele? Absorvia. Ele Ela. Ela Ele. Confundiam-se intimamente. Estranhavam-se dentro dos próprios mundos. Encaixavam-se muito bem na cama. Talvez ela tenha sido o topo mais alto das ousadias daquele jovem. Ele andava de skate. Veloz, destemido, duro. Ele tocava guitarra. Alto, charmoso, desigual. Ela simplesmente deixava a vida levá-la a qualquer canto. Ele falava dele. Ela ouvia. Ele se consumia em bons agrados. Ela sabia. Ele se descobria. E ia. E ela? Consentia. Corroeram-se pela incerteza. Desistiram de si.
Desistiram-se.
Despediram-se.
Apenas, aspirantes a amantes.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Como uma borboleta que só vive 24h

Escrevo numa madrugada quente e estranha. Tenho felicidade em vivê-la e receio acordar amanhã. Talvez a gente só queira voar... Pensar em nada é bom. “Os ignorantes são mais felizes” (?!...) É como viver em um mar de flores do campo. Elas morrem e nascem, sem ao menos que se perceba. O amor que eu procuro está onde? Será que eu percebo? Tenho tantos medos, porém quero a plenitude. Oh, contraditórias madrugadas. Minha língua perde-se com o chiclete que mordo agora, enquanto sou tomada por uma vontade de vestir-me de pureza e de cuspir fora o acúmulo da minha existência.
Com amor,
Michelle

domingo, 5 de abril de 2009

terça-feira, 3 de março de 2009

Não me venha falar de razão

O que é esse tanto? Mantenho-me forçadamente consciente. Evito o álcool. Evito o sono. Não quero me esquecer de nada por instantes. Vivo cada detalhe desta falta. Vejo e sinto cada parte ir. O tempo me trará a conformidade necessária para calmos dias? Estou tomada por pensamentos que me roubam do acordar, comer, dormir e sorrir.