domingo, 2 de agosto de 2009

terça-feira, 28 de julho de 2009

O romântico e a revolucionária (R.R.)

Enquanto ele idealiza, ela chama para o combate, convoca seus soldados, abre o peito - dificilmente pensa em recuar - e segue na linha de frente.
Quase sem estratégia, a revolucionária questiona, como se em vez de arma usasse alma. De alma e ideal o romântico se faz e refaz, e para surpresa da tal revolução, ele coloca seus tambores para rufar. Uma bela canção.
O romântico talvez espere que ela se arme. A revolucionária talvez espere que ele se desarme. E talvez, então, este choque se complete para além da alma e enfim encontre o corpo.

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CANÇÃO DA MAIS ALTA TORRE

Que venha, que venha
O tempo da paixão.

Tive tanta paciência
Que para sempre esqueço.
Temor e penitência
Aos céus partiram.
E a sede doentia
Me escurece as veias.

Que venha, que venha
O tempo da paixão.

Assim o prado
Ao esquecimento deixado,
Engrandece, e floresce
De joio e incenso,
Ao zumbir tenso
Das moscas sujas.

Que venha, que venha
O tempo da paixão.

(porque é para a revolucionária que gosta muito de Arthur Rimbaud)

terça-feira, 21 de julho de 2009

Peladinha

Catarina abaixa no chão e começa recolher com as mãos os cacos da vidraça estilhaçada por uma bola despretensiosa lançada pelos pés de um garoto ansioso em marcar o gol da virada. Um a um era retirado do chão, enquanto a essa altura, a molecada já havia abandonado a rua deixando o placar empatado 1 a 1.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Hoje acordei com saudades, das boas.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Moraria nesta hora

17h10. Minhas moléculas ficam agitadas nesta hora. É a melhor hora do dia.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Sobre vontades III

Então, um desaparecido passa a ser uma foto. Passa a ser aquele momento guardado pela foto. Eu não sei quanta falta sentirei de uma foto que guardasse este momento. Foto é uma forma de arrumar algo desarrumado, materializar expectativas. Tocar em sonhos. Olhar para as sensações. Temo perder a memória disso tudo, deste estado bruto e ilimitado que me sou por hora e por agora. Quero foto desta coisa inteira. Indefinida. Inacabada. De partida.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Só para constar

Acabo de chupar limão e reafirmo o meu gosto pelo azedo. Rá!

terça-feira, 7 de julho de 2009

Pelo Arquiteto

Sabe como é que eu imagino a felicidade? Acho que, quando a gente é feliz, a gente está junto de alguém que tem a pele muito fina e depois a beijamos nos lábios e tudo se encobre de uma névoa rósea e o corpo da pessoa se transforma numa multidão de espelhinhos e quando olhamos para ela somos refletidos milhões de vezes, e passeamos com ela montados nas zebras e nas panteras em volta de um lago e ela nos puxa por uma corda e quando olhamos para ela chovem penas de pombos, que, caindo no chão, relincham como potros jovens e entramos depois num quarto e começamos a passear de mãos dadas pelo teto... E as cabeças se cobrem de ouriços que nos fazem cócegas e os ouriços se cobrem de ouro, cheios de presentes, e escaravelhos de ouro.

(de Fernando Arrabal, em 'O arquiteto e o imperador da Assíria', porque este é um texto que me toca e retoca)

Mecanicidade na cidade ou Sobre vontades II

Deixar-se flagrar de modo inesperado.
O amor filmado em partes.
Parte da vontade.
Como se subisse por escadas.
Como se quebrasse as paredes.
Refletindo o que se é?
O amor se constrói.
E naquele apartamento, o amor se monta.

(encantamento.afinidades.paixão.diferenças.distância...desejo. e o que virá? virá! e que não seja esta pobre linha)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Sobre vontades I

Do amargo gosto de uma madrugada quase fria e paulistana experimento o azedo encanto de me dar. Me entregar. Sentir. Gozar de uma vontade.
Sim, vontade passa, mas me reconheço aos pés dela. Morreria súdita de todas as minhas vontades e obedeceria, sem objeções, todos os meus impulsos e instantes neste choque, nesta colisão que é viver.

(isso porque hoje eu acordei com uma mistura de gostos e sensações)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Desarrumadas as coisas ficarão

Ana era a única virtude de Carlos. Moça de perfil bem alongado, sorriso de lado e um jeito pra lá de abusado. Costumava fumar admirando o cigarro, só para ver a fumaça se esvair lentamente, enquanto soltos, os pensamentos iam junto. A abstração vivenciada neste momento permitia passos mais longos, que jamais teriam alcance. Nunca se sentira pronta para viver uma paixão. E qual mulher se sente?

Encarava o prazer com o mesmo rigor da dor. Mesmo assim buscava um amor. Um amor que ela não conseguia definir. Um amor tão ideal que jamais poderia existir. No seu quarto, roupas fora do armário, livros fora da estante, quadros fora da parede. A desordem aparente refletia sensações profundas da palpitante jovem. Sua alma desorganizada pelos sentimentos aflorados por um homem estava inquieta. Apenas uma paixão é capaz de desconstruir uma vida inteira.

Tudo para fora. Tanto por fazer. Seu corpo pequeno mal continha tamanha vibração. Sabe aquela coisa que não cabe dentro da gente? Sabe quando a gente sente a barriga invadida por borboletas atrevidas? “Estou viva”. “Viva”. Ana somente supunha a vida. Porém, entregar-se significaria arriscar-se a decepção. Significaria aceitar a morte. Preferiu, então, guardar apenas a possibilidade de ser, a improbabilidade da realização. Preferiu, então, a eternidade.

E aquele sujeito um tanto desajeitado, o Carlos, que cuspia no chão e usava botas desbotadas acompanhadas de camisa amassada decidiu esperar por uma possível ordem da moça. Falava com os olhos quando a olhava. Sorria de verdade quando a encontrava. Ana, somente ela o fazia melhor.

domingo, 17 de maio de 2009

É sempre bom lembrá-la

"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa... Não altera em nada porque no fundo a gente não está querendo alterar nada. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro"
Clarice Lispector

sexta-feira, 8 de maio de 2009


Dentro do carro, em um canto qualquer da cidade de São Paulo, entre um farol e outro, ao som de 'Novos baianos' Zé Celso, Astolfo e eu conversávamos sobre nós.

Por Zé Celso

O teatro não pode ser um instrumento de educação popular, de transformação de mentalidades na base do bom-meninismo. A única possibilidade é exatamente pela deseducação, provocar o espectador, provocar sua inteligência recalcada, seu sentido de beleza atrofiado, seu sentido de ação protegido por mil e um esquemas teóricos abstratos e que somente o levam à inefcácia.

Por Astolfo

Chamam-me de louco, porque ainda tenho nariz rubro como pipoca doce. O circo acabou por isso louco. Mas, aqui, mostro uma mentira e escondo todas as verdades. Para sempre louco!

Por mim

Intelectualidade demais é pra quem não goza.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Enquanto vovó faz comida

"Para bom entendedor meia palavra basta". A gente sabe o que querem dizer estas frases feitas, mas eu não creio que um texto deveria se fazer entendível, talvez isso dependa do fim que ele tenha. Porém, eu não gosto desta condição, nem deste fim para que ele sobreviva. Pegue uma pintura, o que nela não for figurativo não é compreendido? Talvez não mesmo, mas ali debruçada está a alma de um ser, as angustias, alegrias ou desejos de alguém... Para mim, uma obra tem de ser sentida, antes de qualquer teoria sobre qual movimento ou estilo artístico ela pertence. As manifestações criativas sobrevivem sem legenda. Um texto sobreviverá sem uma linha narrativa ou cronológica, sem uma história de começo, meio e fim. Me divirto com estes julgamentos e concepções e deles extraio mais um estímulo para criar sem condição alguma pré-estabelecida, e torno a dizer estou em busca do meio apenas. Um texto meu poderá ser um meio para qualquer coisa. Sinta.

Anseios subtraídos ou *An Seios


"E ninguém é eu. Ninguém é você. Esta é a solidão"
Clarice Lispector

Da terra
Tiro um amor despreparado.
Das máscaras
Arranco a meia luz de uma noite covarde.
Tomo banho apenas para sagrar-me limpa
Esquecendo-me de que suja andei por ai
Desamparada
Embriagada, talvez
Desesperada.
Dos sonhos
Peço uma clara manhã preguiçosa,
Com véus e promessas inacabadas
Exacerbadas
Malditas
Esquecidas.
Do ar busco apenas inspiração
Como cura dos prazeres outrora perdidos.
Agonia não tem face, pois
Porém sinto suas mãos frias
Nos meus seios
Sussurrantes
Que abrigam um céu inóspito
Insólito.
Sem querer a tenho aqui comigo
Sem ombros, nem colo
Num breu fétido e atrevido
De um caminho vívido
Fértil
E líquido
Que escorre
E eu deixo escorrer.


* An ou Anu era o deus do céu entre os Sumérios. Filho de Anshar e Ki-shar, esposo de Antu (Ninhurdag) com que gerou Enlil, era o deus mais venerável e velho entre os Anunnaki, fazendo parte de uma importante tríade divina, integrada também por Enlil, o deus dos ventos, e Enki (Ea), o deus das águas.O seu nome parece significar precisamente céu, ou alternativamente, o zénite do Sol. Era um deus cultuado em toda a Suméria, havendo santuários seus espalhados por todas as cidades do país.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Um rabisco desenhado




Parte de um diálogo de devagações a respeito de "Os Sertões", texto de Euclides da Cunha adaptado por José Celso Martinez Corrêa

Concordo em partes cara companheira. Tomando por base a mais pop e não menos verdadeira frase do ilustre e filósofo Sartre "O inferno são os outros", a festa dionisíaca que embala os atuantes há 30 anos nada mais é do que peles tocantes. Apenas e nuas.
Se o nu lhe parece pornográfico, não será Zé Celso um ousado quebrador de barreiras e sim você uma construidora de definições e bloqueios. E já que o mais profundo é a pele - dito pelo filósofo e tão francês quanto o primeiro Paul Valéry - o espetáculo alcança de forma magistral a razão de sua existência. Sem fronteiras evoca o ser humano a aprofundar-se. Sem roupas demonstra aos menos tocados suas falsas liberdades, quando o aprisionamento parte de quem vê, e não de quem se propõe a fazer. Não há nada de inovador nisso. Eu apenas diria assista. Augusto dos Anjos ficaria feliz, na literatura ele é cru e nu é Zé Celso no teatro. Afinal o sertão é nu e cru, não?