"O sexo é a satisfação impossível. O amor é que justifica o fato de o homem ter nascido"
Nelson Rodrigues
abriu a caixa de Pandora e ficou com a escolha
3h40. Estar acordada até esta hora não é novidade, mas hoje eu sei que é diferente, ou pelo menos quero que seja. A tarde foi reflexiva e terminou pedindo uma noite prolongada. Ta aí. Não sinto frio e há um mês não chove na terra da garoa. Parece que as expressões não cabem em alguns momentos. Ou talvez estejam velhas demais para serem ditas. “Eu te amo”? Enfim, seja o que for o que mantém os meus olhos abertos agora é o mesmo que mantém o meu coração fechado. Quem se importa que o meu sábado costumava ser azul? As palavras são sedutoras. Falar é muito bonito! Porém digo: sentir pode causar bolotas de alergia pelo corpo, dessas que coçam de repente e para valer. Como sei? Bem, eu criei a minha própria cartilha com tais e tantas palavras sedutoras. Acreditei em tudo o que disse. Aboli o guarda-chuva dos meus itens de acessórios. Regrei meus atos, achei que pudesse supor sentimentos. Mas vez ou outra me pego com a bóia debaixo do braço. “Nunca se sabe quanto a chuva pode chover”. Perceber que a pior das pinturas da cara é aquela que pretendia ser definitiva não é lá muito agradável, aliás, é foda. Farsa que fala, fala e diz? Cansei da idéia. Bela, suprema, fascinante! Sustenta, mas me pára. Quero as minhas pernas livres, meus pés descansados. Cabelos e voz ao léu. E quem sabe um pote de bolotas coçadoras, talvez eu volte a abrir a tampa.- Um dia, estaremos além da matéria. Além do caos presente. E as palavras buscarão decodificar sentidos. E os sentidos estarão libertos. -
Noite clara, conduta instigante. Começo assim uma noite enfiada em delongas incessantes. Se a minha cabeça pudesse parar um instante, certamente eu dormiria, mas insisto em acordar daquele brando sonho de uma vida de começo e fim. Abro a janela para deixar que o vento leve tais sentenças. No alto, a lua deixando-se mirar mostra-se inócua. Ela sempre bela, donzela de várias faces, está embriagada de substâncias sápidas. Meu hálito não pode descortiná-la. Sim, estou com vinho em meus lábios, entre os dedos, na língua. Certa de si. "Não suporto coisas intocáveis, ao mesmo tempo me perco fascinada por elas". Fecho a janela, ignorada. Abro a minha caixa de dores para chorar um pouco, mas ela está despovoada. Não devo chorar. "Os deveres me cansam". Deixo, então, a caixa aberta, em cima da cômoda, para que alguma dor possa entrar e se sentir confortável. Vestir estas meias para proteger meus pés do frio foi inútil. Ouvi dizer que os pés quentes mantêm o corpo quente, mas sinto frio na espinha. Nada irá me livrar de mim. Nada. Limpo a boca, engolindo saliva e precisando de razão. Alterar meu consciente faz-me acordar com dores fortes na cabeça, para mais uma vez eu lembrar que meus pensamentos estão nela. Preciso de razão? “A razão me esgota”. Abro o livro que me encara toda noite em uma página qualquer. Leio. “Você precisa de outra tragédia, não é?”. Eu não. Ou sim? Ele é sobrevivente, o personagem do livro. Eu só quero um pouco mais de algo. Insaciável desejo humano de ser notado. Me entregaria ao excesso, se motivo eu tivesse, mas talvez a minha noite esteja acabando e o meio ainda queira ser encontrado, num sonho. Visto-me! Primeiro a calcinha depois o blusão cor de rosa. Sem meias, conduzida a buscar o meio.