quinta-feira, 7 de maio de 2009

Anseios subtraídos ou *An Seios


"E ninguém é eu. Ninguém é você. Esta é a solidão"
Clarice Lispector

Da terra
Tiro um amor despreparado.
Das máscaras
Arranco a meia luz de uma noite covarde.
Tomo banho apenas para sagrar-me limpa
Esquecendo-me de que suja andei por ai
Desamparada
Embriagada, talvez
Desesperada.
Dos sonhos
Peço uma clara manhã preguiçosa,
Com véus e promessas inacabadas
Exacerbadas
Malditas
Esquecidas.
Do ar busco apenas inspiração
Como cura dos prazeres outrora perdidos.
Agonia não tem face, pois
Porém sinto suas mãos frias
Nos meus seios
Sussurrantes
Que abrigam um céu inóspito
Insólito.
Sem querer a tenho aqui comigo
Sem ombros, nem colo
Num breu fétido e atrevido
De um caminho vívido
Fértil
E líquido
Que escorre
E eu deixo escorrer.


* An ou Anu era o deus do céu entre os Sumérios. Filho de Anshar e Ki-shar, esposo de Antu (Ninhurdag) com que gerou Enlil, era o deus mais venerável e velho entre os Anunnaki, fazendo parte de uma importante tríade divina, integrada também por Enlil, o deus dos ventos, e Enki (Ea), o deus das águas.O seu nome parece significar precisamente céu, ou alternativamente, o zénite do Sol. Era um deus cultuado em toda a Suméria, havendo santuários seus espalhados por todas as cidades do país.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Um rabisco desenhado




Parte de um diálogo de devagações a respeito de "Os Sertões", texto de Euclides da Cunha adaptado por José Celso Martinez Corrêa

Concordo em partes cara companheira. Tomando por base a mais pop e não menos verdadeira frase do ilustre e filósofo Sartre "O inferno são os outros", a festa dionisíaca que embala os atuantes há 30 anos nada mais é do que peles tocantes. Apenas e nuas.
Se o nu lhe parece pornográfico, não será Zé Celso um ousado quebrador de barreiras e sim você uma construidora de definições e bloqueios. E já que o mais profundo é a pele - dito pelo filósofo e tão francês quanto o primeiro Paul Valéry - o espetáculo alcança de forma magistral a razão de sua existência. Sem fronteiras evoca o ser humano a aprofundar-se. Sem roupas demonstra aos menos tocados suas falsas liberdades, quando o aprisionamento parte de quem vê, e não de quem se propõe a fazer. Não há nada de inovador nisso. Eu apenas diria assista. Augusto dos Anjos ficaria feliz, na literatura ele é cru e nu é Zé Celso no teatro. Afinal o sertão é nu e cru, não?

terça-feira, 21 de abril de 2009

Blah!

"Cada ser humano é um abismo e a gente tem vertigens quando se debruça sobre um deles”
Georg Büchner

Nauseando-se.
Nauseando-se.
Nauseando-se.
Que venha o vômito!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Enraizando

Há tempos não me sentia estimulada para escrever. Passei um longo período sem visitar este blog e até pensando em tirá-lo do ar. E agora sem eu saber o exato porque sinto uma imensa necessidade de me expressar. O mês de abril recebeu mais posts do que os últimos três meses juntos. Fase da vida? Vai saber... Sei que estou tomada por uma coisa aqui dentro meio inexplicável. É vontade de algo, sabe? Dar uma enorme gargalhada (e isso eu faço mesmo!), vontade de andar por aí, de ser surpreendida, de me apaixonar mais e mais pelas "coisas" da vida, de experimentar. Toda essa vontade tem me levado a visitas mais frequentes por aqui. E creio, esta tal disposição me levará além e sinto, estou pronta para isso.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Cicatrizes

Talvez ele tenha sido o verso mais puro dos delírios daquela jovem. Ela tomava café. Preto, forte, escuro. Ela pintava as unhas. Vermelho, quente, sensual. Ele simplesmente usava calça jeans e tênis all star destes que nunca se tira para lavar. Ela conduzia aos lugares. Ele sorria. Ela ardia em ideologias e vontades. Ele sentia. Ela se desfazia. E ia. E ele? Absorvia. Ele Ela. Ela Ele. Confundiam-se intimamente. Estranhavam-se dentro dos próprios mundos. Encaixavam-se muito bem na cama. Talvez ela tenha sido o topo mais alto das ousadias daquele jovem. Ele andava de skate. Veloz, destemido, duro. Ele tocava guitarra. Alto, charmoso, desigual. Ela simplesmente deixava a vida levá-la a qualquer canto. Ele falava dele. Ela ouvia. Ele se consumia em bons agrados. Ela sabia. Ele se descobria. E ia. E ela? Consentia. Corroeram-se pela incerteza. Desistiram de si.
Desistiram-se.
Despediram-se.
Apenas, aspirantes a amantes.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Como uma borboleta que só vive 24h

Escrevo numa madrugada quente e estranha. Tenho felicidade em vivê-la e receio acordar amanhã. Talvez a gente só queira voar... Pensar em nada é bom. “Os ignorantes são mais felizes” (?!...) É como viver em um mar de flores do campo. Elas morrem e nascem, sem ao menos que se perceba. O amor que eu procuro está onde? Será que eu percebo? Tenho tantos medos, porém quero a plenitude. Oh, contraditórias madrugadas. Minha língua perde-se com o chiclete que mordo agora, enquanto sou tomada por uma vontade de vestir-me de pureza e de cuspir fora o acúmulo da minha existência.
Com amor,
Michelle

domingo, 5 de abril de 2009

terça-feira, 3 de março de 2009

Não me venha falar de razão

O que é esse tanto? Mantenho-me forçadamente consciente. Evito o álcool. Evito o sono. Não quero me esquecer de nada por instantes. Vivo cada detalhe desta falta. Vejo e sinto cada parte ir. O tempo me trará a conformidade necessária para calmos dias? Estou tomada por pensamentos que me roubam do acordar, comer, dormir e sorrir.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Eterno vento gélido na face áspera de uma dama sem razão

Mãe, mãe, o grande dia chegou. Eu esperei tanto. Você esperou tanto! A gente nasce, cresce, se reproduz e morre, não é, mãe? Eu acho incrível como não me sinto completa a não ser que as pessoas estejam me olhando. Me de saudades de casa. Me de lembranças nostálgicas de minha infância. Flash!

Mãe, eu fiz direitinho todas as indicações. Cumprimentei os vizinhos. Sorri para as professoras da escola. Escovei os dentes. Aprendi todas as receitas. Criei objetivos de vida. Me tornei uma modelo famosa. Tomei a pílula do dia seguinte. E cadê o futuro que haviam me prometido? Já sei ele vai aparecer e me dar um susto daqueles, assim como você fazia quando eu era criança. Quando foi que o futuro deixou de ser uma promessa para ser uma ameaça?

Mãe presta atenção em mim. Eu menti. O véu que eu uso não é na cabeça... Eu perdi audiência, mãe. Você conhece o sentimento de se sentir invisível e mais invisível a cada dia? O véu que eu uso cobre o vento gelado que faz no meu rosto. Eu to tão cansada mãe. Que tipo de pessoa eu sou? Eu mudo de canal. Eu mudo de canal. Eu mudo de canal. Olho para as pessoas que sofreram acidentes com fogo e imagino quanto tempo de vida elas economizaram sem se olhar no espelho buscando imperfeições. A verdade, mãe, é que eu atirei em mim mesma e deformei o meu rosto. A verdade é que eu sinto muito. Me dê liberdade. Flash.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

"O sexo é a satisfação impossível. O amor é que justifica o fato de o homem ter nascido"
Nelson Rodrigues
"Uma pessoa que só tenha do mundo uma visão unilateral e rósea e que ignore a face negra da vida é uma pessoa multilada"
Nelson Rodirgues

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Sobre legumes e verduras

A vertigem me dá quando busco o tal do algo a mais em mim.
Será tudo efêmero nesta vida?
Os vertiginosos me parecem aqueles que têm algo a mais a dizer.
Será tudo teatro nesta vida?

Pois bem, ontem mesmo, conversava com um amigo sobre conhecer, sobre o conhecimento. Lamentei a ele, que a partir de tal fato jamais podemos voltar atrás. ‘Escolheria, eu, certos momentos para caminhar apenas, já que quando ando, sempre dou aquela olhadinha para trás, para os lados, para cima’. A ignorância, muitas vezes, é santa, mas eu, muitas vezes, esqueço-me de rezar.

| seg, ter, qua, qui, sex, sab, dom |

Um mergulho nisso tudo.




imagem de Thiago Abe

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Abaixo o discurso

3h40. Estar acordada até esta hora não é novidade, mas hoje eu sei que é diferente, ou pelo menos quero que seja. A tarde foi reflexiva e terminou pedindo uma noite prolongada. Ta aí. Não sinto frio e há um mês não chove na terra da garoa. Parece que as expressões não cabem em alguns momentos. Ou talvez estejam velhas demais para serem ditas. “Eu te amo”? Enfim, seja o que for o que mantém os meus olhos abertos agora é o mesmo que mantém o meu coração fechado. Quem se importa que o meu sábado costumava ser azul? As palavras são sedutoras. Falar é muito bonito! Porém digo: sentir pode causar bolotas de alergia pelo corpo, dessas que coçam de repente e para valer. Como sei? Bem, eu criei a minha própria cartilha com tais e tantas palavras sedutoras. Acreditei em tudo o que disse. Aboli o guarda-chuva dos meus itens de acessórios. Regrei meus atos, achei que pudesse supor sentimentos. Mas vez ou outra me pego com a bóia debaixo do braço. “Nunca se sabe quanto a chuva pode chover”. Perceber que a pior das pinturas da cara é aquela que pretendia ser definitiva não é lá muito agradável, aliás, é foda. Farsa que fala, fala e diz? Cansei da idéia. Bela, suprema, fascinante! Sustenta, mas me pára. Quero as minhas pernas livres, meus pés descansados. Cabelos e voz ao léu. E quem sabe um pote de bolotas coçadoras, talvez eu volte a abrir a tampa.

- Um dia, estaremos além da matéria. Além do caos presente. E as palavras buscarão decodificar sentidos. E os sentidos estarão libertos. -

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Veloz em tintas

Noite clara, conduta instigante. Começo assim uma noite enfiada em delongas incessantes. Se a minha cabeça pudesse parar um instante, certamente eu dormiria, mas insisto em acordar daquele brando sonho de uma vida de começo e fim. Abro a janela para deixar que o vento leve tais sentenças. No alto, a lua deixando-se mirar mostra-se inócua. Ela sempre bela, donzela de várias faces, está embriagada de substâncias sápidas. Meu hálito não pode descortiná-la. Sim, estou com vinho em meus lábios, entre os dedos, na língua. Certa de si. "Não suporto coisas intocáveis, ao mesmo tempo me perco fascinada por elas". Fecho a janela, ignorada. Abro a minha caixa de dores para chorar um pouco, mas ela está despovoada. Não devo chorar. "Os deveres me cansam". Deixo, então, a caixa aberta, em cima da cômoda, para que alguma dor possa entrar e se sentir confortável. Vestir estas meias para proteger meus pés do frio foi inútil. Ouvi dizer que os pés quentes mantêm o corpo quente, mas sinto frio na espinha. Nada irá me livrar de mim. Nada. Limpo a boca, engolindo saliva e precisando de razão. Alterar meu consciente faz-me acordar com dores fortes na cabeça, para mais uma vez eu lembrar que meus pensamentos estão nela. Preciso de razão? “A razão me esgota”. Abro o livro que me encara toda noite em uma página qualquer. Leio. “Você precisa de outra tragédia, não é?”. Eu não. Ou sim? Ele é sobrevivente, o personagem do livro. Eu só quero um pouco mais de algo. Insaciável desejo humano de ser notado. Me entregaria ao excesso, se motivo eu tivesse, mas talvez a minha noite esteja acabando e o meio ainda queira ser encontrado, num sonho. Visto-me! Primeiro a calcinha depois o blusão cor de rosa. Sem meias, conduzida a buscar o meio.
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A noite é escura, preta, vaga. Adoro vagar devagar por ela.
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música: Noturno Op. 9 n 2, de Chopin

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Fala baixo

Os espaços do corpo limitado pelo olhar dele não foram preenchidos, apesar de lhe serem cobrados. Ele reclama a falta deles. Ela quer que os preencha. Espaços distintos. Confusos. Abertos. Quando sua fala é mansa. Quando seu gesto é curto. Quando seu olhar é miúdo. Não é ternura, é desprezo. Não é delicadeza, é desprezo. Não é doçura, é desprezo. O corpo dela é desespero. Transborda o gozo surdo.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

De onde vem?

Maçã, maca, cana, mana, cama, anca, anca, anca pra quem tem.

Fragmentos, do zero

Gosto da folha branca.
Gosto branco da nuvem.
Passeia no trilho velho da máquina.
O velho da praça viva vira a esquina.
Sem lembrar quem vem.
Sem sequer ter fama.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Sim, ela pode dizer e escrever que ama

Lara leu dez rótulos de remédios sem cansar-se e sem os óculos. Ficou impressionada como tudo pode ser apenas palavras. Fábulas. As coisas não passam de um lírio caído numa folha de rosto, que um dia será um tapa na cara bem dado. Eu digo bem feito?

Quando Lara arrancou as suas máscaras, esqueceu-se de quantas ainda encontraria. Tão tocantes e sedutoras. Ele é pontual. Não perde o charme, nem a hora. E ela? Bem, a Lara nunca quis largar um amor, mas largou uma porção deles. Aprendeu a conviver com a falta, como se ela fosse algo. Há coisas que são pelo desgaste e há coisas que acabam por isso também.

Na última noite, tudo lhe pareceu longo e estranho. O uivado do cachorro. O celular apitando para dizer que a bateria estava acabando. O feijão sendo cozido na panela de pressão. A descarga do vizinho. Não carregava nada na face, a não ser pavor. Foram horas de arderem a alma. Queimou e meteu frio. Beber algo? Um vinho. Coloriu as bochechas rosando até as narinas. Nada mal rodopiar na roda viva. Alto som, breve dor.

Tudo se transformou em um não sei. Sem óculos ela enxerga. A gente afasta justamente para não perder o que foi afastado. Sem máscaras ela sente. Perde antes, porque Lara não espera. “A gente rodou num instante, nas voltas do meu coração”.