segunda-feira, 30 de junho de 2008

De onde vem?

Maçã, maca, cana, mana, cama, anca, anca, anca pra quem tem.

Fragmentos, do zero

Gosto da folha branca.
Gosto branco da nuvem.
Passeia no trilho velho da máquina.
O velho da praça viva vira a esquina.
Sem lembrar quem vem.
Sem sequer ter fama.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Sim, ela pode dizer e escrever que ama

Lara leu dez rótulos de remédios sem cansar-se e sem os óculos. Ficou impressionada como tudo pode ser apenas palavras. Fábulas. As coisas não passam de um lírio caído numa folha de rosto, que um dia será um tapa na cara bem dado. Eu digo bem feito?

Quando Lara arrancou as suas máscaras, esqueceu-se de quantas ainda encontraria. Tão tocantes e sedutoras. Ele é pontual. Não perde o charme, nem a hora. E ela? Bem, a Lara nunca quis largar um amor, mas largou uma porção deles. Aprendeu a conviver com a falta, como se ela fosse algo. Há coisas que são pelo desgaste e há coisas que acabam por isso também.

Na última noite, tudo lhe pareceu longo e estranho. O uivado do cachorro. O celular apitando para dizer que a bateria estava acabando. O feijão sendo cozido na panela de pressão. A descarga do vizinho. Não carregava nada na face, a não ser pavor. Foram horas de arderem a alma. Queimou e meteu frio. Beber algo? Um vinho. Coloriu as bochechas rosando até as narinas. Nada mal rodopiar na roda viva. Alto som, breve dor.

Tudo se transformou em um não sei. Sem óculos ela enxerga. A gente afasta justamente para não perder o que foi afastado. Sem máscaras ela sente. Perde antes, porque Lara não espera. “A gente rodou num instante, nas voltas do meu coração”.

domingo, 20 de abril de 2008

Cão, cão, cão

Na insanidade da minha calça jeans tento me manter sentada, com os olhos parados, esbugalhados a flagrar pela janela aberta - que venta vento doído - a rabiola da pipa colorida que sobe e desce. Sobe e desce. Não diga que a menina de vestido florido pode pegar na maçaneta da porta fechada. Quando a buzina passa na rua, o brilho do asfalto reluz na retina da minha poesia refletida no verso da folha esquecida. Bandida menina que soa o sino, badala a criança na balança da vida que pulsa e mata. Vá e diga que sim. Sinta. Sinta tudo o que puder. O carro parado te espera. Se o homem de preto não te deixa passar grude o bilhete na cortina. O mundo vê. O mundo vê você. Roda. Roda. Roda. Não diga nada. Só respire. Inspire e expire. Coloca para fora o que te incomoda. Cuidado com o pus na garganta. Use capuz para proteger-se do vento que corta. O olho está aberto. Não feche! A porta tem maçaneta. O tempo escorre macarrão espaguete. O tempo escorre molho de tomate. Vista a camisa. Coma com o garfo. Limpe a boca. Não feche os olhos. Acorda! A corda arrebenta a tormenta de ser o que se quer. Apenas um burro deitado num piano soprando para a pipa subir.
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(depois de Luis Buñuel)

segunda-feira, 24 de março de 2008

Inteiramente domingos

Falamos tanto em carta de amor. Falamos tanto em escolhas. Falamos tanto no acaso - que não existe para nós... Talvez existam domingos nossos de cada dia. Domingos para fazer de novo. Domingos do fim e começo. Domingos plenos. Domingos de mãos na barriga e ouvidos na pulsação. Domingos de olhos nos olhos e nenhuma palavra. Domingos de duras palavras e grandes suspiros. Domingos verdadeiramente domingos, dignos de preguiça, com zero de plano. Domingos que metem medo. Domingos que gritam de satisfação. Domingos que navegam e são navegados. Domingos que gozam geléia de verdade. São os domingos nossos de cada dia, que me preenchem, porque são nossos. Porque você é o meu instante, e me torna Michelle por inteiro.

Domingo

Verdades e mentiras não deveriam existir. Para que classificar o que se pensa o que se diz se somos tudo. Verdades para achar que são mentiras, mentiras para acreditar. Verdades que não afloram mentiras que magoam. Não me importará a classificação, se vejo só o que quero ver. Por que insistir em justificar através da “verdade” e fazer através da “mentira”? O frio que vem na barriga provém da verdade que tento disfarçar. A insegurança que vem a cabeça provém da mentira que não quero escutar. Verdades e mentiras. Até me parecem iguais. Alguém ainda me dirá que isso é perigoso. Mas mergulho em camadas desta confusão que é falar, pensar e sentir. Ora me encontro dupla. Ora não me encontro. Tudo está preso na idéia. Devo querer ação. Os instantes me tornam inteira, nem dupla, nem vazia, inteira. Ser apenas isso já me vale um tanto. Não quero as questões. Verdades e mentiras sempre serão demais para mim. São cruéis, reduzem a complexidade de tudo. Se é verdade é verdade. Se é mentira é mentira. Simples. Eu quero sempre mais, o todo contaminado, infectado, sem ressalvas nem reservas. Vá diga que há tempo para o domingo ser assim. Diz. Serão apenas palavras. Diz. Estou pronta para crer.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

E há beleza

Por pouco esqueço que eu sou a Michelle, aquela que usava uma blusa amarela, gola alta e que nunca quis evitar um sorriso. Em horas como essas, recorro a ele, o samba. Me sabe mais do que imagino.

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
(Candeia)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Criatura pregada

As certezas me assustam mais do que as dúvidas.

Liberdade?

Não sei. Arrisco, hoje, dizer que é a tradução do ser no seu estado bruto. A avalanche de sentidos somada à ação.
Dizer sim, quando se sente sim.
Dizer não, quando se sente não.
Andar, antes de engatinhar.
Pintar, antes de desenhar.
Amar, antes de beijar.
Transar, antes de se apaixonar.
Mais do que decidir é sentir e agir, agir e sentir.

Para além das máscaras

Atuar é como me virar do avesso. Os olhares da platéia me despem de toda a verdade segura, como se ela fosse seca. Seca a garganta, contrai e descontrai os músculos, exala cheiros. A história de vidas nasce tão intimamente quanto o colo da mãe e o choro do filho.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Apenas letras


"Quando um homem deixa de escolher, ele deixa de ser homem"


Stanley Kubrick




Ela não escolheu o senso comum.
Ele está impregando de mágoas e medos.
Preferiu se recrirar, se refazer, se reinventar, se destruir.
Ela não escolheu a bondade.
Ela é covarde.
Impede de agir e sentir a verdade inteira do seu próprio ser.

"Do que você se acha capaz?
De ser aceito?
Isso é tudo o que pode?"

Ela escolheu ser livre.
Foi aprisionada às regras da liberdade.
Padeceu.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Há tempos não chupo manga

A ignorância momentânea me leva aos deleitos prometidos em algum dia perdido. Na cama, sem nenhum cigarro depois do sexo e com um livro boquiaberto parado em cima do criado mudo. Nua, quis sentir ventar. Na varanda venta, lembro dele murmurar. Ventou até arrepiar.

Deitada no chão, olhei para a vida que anda lá fora. Entre listras, pude ver singularidades de uma rua qualquer. Hoje eu me lambuzei de manga, sem temer os fiapos que ficam no meio dos dentes. Gosto doce. Cheiro bom.

Voltei ao quarto incompleta. Apaguei a luz e lembro de ter dito "boa noite". Anos depois, lembraria do cafuné antes do sono profundo. Mais íntimo do que o sexo que fizemos, o sono. Isso é entrega. Dormi ao lado de um homem alto, de barba serrada, voz macia, toque áspero, desconhecido e poliglota - que nada tinha a falar.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

20 e poucos anos

Num mundo profano me dano.
Entre cheiros e sabores de tantos amores.
No vazio preenchido por atores.

Na esquina divina, divido e duvido.
Dos espelhos que me enxergam.
Das questões que me proponho.

Suponho ser mais, muito mais.
E ainda sim, sinto frio ao amanhecer.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Cibelle

Cibelle nunca foi capaz de questionar a igualdade. É igual desde que nasceu. Ela se repete como os éles do seu nome. Cibelle. Ah, como queria tocá-la, sentí-la. Sei mais dela do que de mim. Tão exata. Cada linha que me mostra revela perfeição. Cada linha que me mostra revela despudor. Cada linha que me mostra constrói massas, tecidos de horas que virão. Mais do que original, é igual.

Passaria dias olhando sua imagem, sentada na penteadeira. O que tens dentro destes olhos ingênuos? Por que me hipnotiza tanto me permitindo falar sem parar. Você tão calada. Eu tão articulada. Mas somente frente a ti. Quando não a vejo esqueço-me de mim. Quando a perco, o esforço para me tornar o que me fez enxergar parece tolo. Só Cibelle. Do que aprendi nada sei. Do que vi nada lembro. Do que falei tenho medo - a ti falei tudo. Quando sumiu dos meus sentidos busquei conselhos daqueles de anos bem vividos. Esvaziei-me, então. Sem perceber que aqueles de anos bem vividos jamais saborearam o gosto azedo, como eu e ela. Acreditei em palavras duras, verbos sujos, verdades descoradas. Recorri a ele, o azedo. Azedei meus poros desejando ignorância, desejando olhos vendados. Pude sentir exalar deleites sofridos em instantes inertes. Foi um alívio. Descalçada, sem linha alguma, decidi nutrir por dento o que de fora havia me dado. Refletida. Eu era apenas linhas e curvas. Só. As horas ainda virão e os passos devem ser cada vez mais certos.

O mundo de Cibelle tem carrossel e histórias em quadrinhos. Tem gargalhadas de garganta e sorrisos num piscar. Tem peito aberto e machucado no joelho. Tem segredos de ciranda, pega-pega e leite quente - que um dia irá azedar. E ainda laços de cabelo desenhados na pele. Cibelle é Michelle com todos os élles. Onde você está?

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Caracol

É impressionante, quando a gente dobra as cordas elas voltam a se esticar. Tem coisa que precisa ficar no lugar. Aprendi isso na marra, sem amarra. Bom mesmo seria arrebentar. Estourar com tudo. Esticar, esticar, esticar até romper. Todo aquele emaranhado que parece não ter fim, um dia cessa. Bum. Acaba! Se bem que, às vezes, é mais fácil enrolar bonitinhho e guardar numa caixa. Ela finge que fica no lugar e você finge que ela está bem lá.
- Ainda não fiz a minha escolha. Deixo este texto assim, inacabado. -

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Gole a gole

Ela me empurrou para uma dança sórdida.
Ah, quantos passos fora de compasso.
Alegria vaga. Movimento largo.
Tudo bem?

Ela me levou aos sonhos mais profundos e descabidos.
Disse que eu podia mais. Cada vez mais.
Instigou, provocou.
Rendida aos teus mistérios me entreguei ao seu amargor.

Descia pouco a pouco.
Subia pouco a pouco.
Gelou a máscara, esquentou o corpo.
Ela comeu meus muros, soltou meu riso, prendeu a minha fala.

Depois neguei tudo. Tudo.
Ela apagou a lembrança. Fingiu que curou.
Mas a estranheza da manhã perturbou meu sono.
Alegria solitária. Movimento curto.

Não ouvi nada. Nada.
O gosto amargo na boca gelada perpetuava a noite passada.
Olhei no espelho.
Eu, desconhecida para mim.
Eu, ainda estou aqui.
Desci, lentamente desci para não mais subir.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Exercendo instantes

Não quero ser um retrato, quero ser um quadro de tinta fresca. Aquele que paralisa o olhar de tanto incomodo capaz de raptar alguém de sua conformidade diante de tamanha imperfeição. Obra inacabada que faça mudar. Mudar. Mudar-me. A namorada exemplar eu não quero ser. Aquela que liga na hora certa. Aquela que sabe escutar. Aquela que sorri para os amigos dele. Também não quero ser a melhor recordação de um amante amado. Não basta. Pretensiosa sim. Basta não. Quero ser sem atributos. Ser no instante. Na efemeridade. Ser até esgotar. De tão esgotado não ser mais nada. Nada. Isso, isso que eu quero ser: nada.

Estive pensando em Dona Idalí... Ela me irrita. Tão previsível. Incapaz de agüentar sua própria ousadia. Liga, mas não diz. Ouve, mas não corresponde. Talvez eu tenha um pouco de Dona Idalí, por isso me irrite tanto com ela. Talvez. Jamais quero sê-la.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Nego tudo

Não perderia a fala se você me ouvisse
Não me cegaria se você fosse presente
Não sumiria se você me visse
Não viveria se não te amasse

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Nasce, cresce, se reproduz e morre

De cadeira em cadeira a sala ficou vazia. A multidão sentada não tinha nada a dizer. Também não tinha nada a sentir. Petrificou. A ausência de luz se impunha sobre aqueles seres. Humanos talvez. Alimentam-se do passado e dormem a espera de algo, sem fechar os olhos. Abandonados a vida, lamentam o que não foram. Condenados a viver, contam histórias de si mesmos - que jamais vivenciaram. Só para acreditar. Seres humanos sim. São eles que têm esta coisa de “acreditar”. Estão sempre querendo crer. Na sala, deram-se nomes como se não fossem registrados em cartório e riram da desgraça alheia como se não fossem desgraçados. Sob o tapete persa inaugurado naquela noite todos brindaram o encontro erguendo taças de cristal. Erguiam também as posses, o "status", as vantagens e a indiferença. Uma máscara conversado com outra. E quem falava alto era o umbigo de cada um. Mesa farta, umbigo inchado e um buraco. Buraco esse a espera de ser tampado. E aqui inevitavelmente eles se igualam. Não tem pompa, não tem título, não tem perfume que os diferencie. Pobres humanos!

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

A. ou Poeira empoeirada do móvel da calçada

Está tudo parado. A coleção de cds. A leitura daquele livro interessante. Os ingressos do teatro. Está tudo apagado. O quarto de diálogos. O caderno secreto. A exposição inédita. Está tudo a beira. O copo de água. A cabeça da artista. Os pés descalços. Está tudo gelado. As cordas do violão. As mãos magras. A coberta quente. Quente está tudo. O chá da noite. O banho no chuveiro. O rádio ligado. Está tudo longe. A maquiagem ousada. O salto provocante. O desprezo necessário. Está tudo em branco e preto. O céu azul. O esmalte vermelho. O amor puro. Está tudo vazio. O pote de doces. A caixa de cartas. O corpo dela. Está tudo guardado. Você e eu. Eu e você. Você e eu. Eu e você. Está tudo veloz. A paixão inesperada. Os meses de outono. O fim de tudo. Tudo está onde deveria estar? Gota a gota, a vida escorre pela rua, pela foto, pela parede, pelas pernas, por mim e por ti.